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PRECISAMOS FALAR SOBRE GÊNERO

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Recentemente, a imprensa mineira noticiou que um grupo de pais de um tradicional colégio de Belo Horizonte/MG havia feito um abaixo-assinado e uma notificação extrajudicial contra a inclusão de temas relacionados a gênero e sexualidade no plano pedagógico da escola. O colégio, que manteve sua posição, disse que seu projeto contempla a sociedade pluralista em que vivemos, abordando, de forma dialogal e respeitosa, os desafios do mundo contemporâneo. O Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep/MG) veio a público manifestar apoio e solidariedade à escola. Nós já oferecemos cursos aos diretores de escolas associadas sobre o tema e estamos atentos aos desafios da atualidade, entendendo que a promoção ao respeito e à tolerância, presentes na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), deve ser cumprida por todas as escolas particulares.

Ao contrário do que muita gente tem pensado e disseminado nas redes sociais, as discussões sobre gênero e orientação sexual na escola não partem do objetivo de ensinar aos alunos que todos nós nascemos sem gênero definido e que, socialmente, ele é construído. Essa teoria até existe e tem sido discutida em algumas universidades: chama-se Teoria Queer, da filósofa norte-americana Judith Buttler, mas é apenas uma teoria acadêmica e está longe de ser implementada em nossas instituições ou nos planos de educação. A palavra gênero não implica uma teoria, mas sim uma identidade, que é um processo de cada indivíduo, assim como acontece com a orientação sexual. Diversos países desenvolvidos e com um sistema educacional internacionalmente reconhecido, como a Finlândia, a Dinamarca, a Alemanha, e até mesmo os Estados Unidos, têm debatido a questão em suas salas de aula. Mesmo com o tema incluído, até hoje não se sabe de um único professor que tenha influenciado ou manipulado a orientação sexual ou a identidade de gênero de qualquer um de seus alunos.

No Brasil, o que nossos alunos precisam aprender é que a diversidade é a grande marca do mundo. Enquanto educador, penso que a escola, de forma técnica, profissional e competente, deve falar desses temas para diminuir o choque e evitar o senso comum. É direito da escola e dos pais optar por qual recorte irão fazer na educação, mas mesmo a escola mais conservadora possível vai ter que enfrentar o fato de que a sociedade é muito maior do que ela mesma.

É saudável que tanto os pais quanto a escola preparem os alunos para o Planeta. Temos uma variedade enorme de comportamentos, de identidades, de orientações sexuais, independente ou não da existência da escola. O Brasil é campeão de crimes contra a população LGBT e, quando a escola não trata esse tema em sala de aula, permite-se que o preconceito e o senso comum dominem. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o ensino de gênero impede o surgimento dos problemas, não o contrário.

Acredito que o processo educativo não se dá apenas na preparação dos alunos para enfrentar os desafios acadêmicos e profissionais, mas também na formação de cidadãos melhores, aptos a construir um mundo mais justo, fraterno e livre de conflitos. Os pais devem ver com a mais absoluta tranquilidade a abordagem pela escola de temas recorrentes na atualidade, como racismo, machismo, inclusão de pessoas com deficiência e a LGBTfobia. Todas as pessoas nascem diferentes umas das outras e devem conviver de forma harmônica. As instituições particulares de ensino prezam pela contratação de uma equipe preparada, e todos os temas abordados em sala de aula são previamente discutidos e analisados de forma séria e ética. A escola - como qualquer instituição - não tem o papel de tentar manipular a orientação ou a identidade de alguém, interferindo nesse processo, mas pode ajudar a instaurar a cultura do respeito às diferenças e preparar os alunos para compreender um mundo tão plural e diverso.

É preciso entender que o mundo evolui e que a escola, como grande promovedora da educação e formação cidadã, não pode ficar para trás. Há poucas décadas, em alguns lugares do mundo, negros eram proibidos de frequentar as universidades, de utilizar banheiros comuns, de concorrer a cargos públicos. E a grande maioria achava a atitude correta. Há poucas décadas, mulheres também eram impedidas de votar, de trabalhar, de dirigir veículos. Até hoje, pesquisas apontam que a diferença de salário entre homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo ainda é significativa. O mundo é desigual, injusto, e muita coisa ainda precisa ser feita para que todas as pessoas, independentemente de cor da pele, gênero ou orientação sexual possam usufruir de uma vida digna e com oportunidades. Vamos fazer nossa parte?

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