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Uma professora para se INSPIRAR



A escuta, a observação cuidadosa, o pensamento crítico e a vontade de transformar vidas foram a base para que a professora de tecnologia Débora Garofalo enfrentasse com garra os desafios que surgiam no caminho e construísse um trabalho grandioso com seus alunos. Atuando em uma escola pública de uma comunidade na zona sul de São Paulo/SP, a docente ouviu dos estudantes o relato de que o lixo os impedia de chegar até a escola em dias chuvosos, uma vez que causava alagamentos. A partir disso, ela decidiu desenvolver um projeto com robótica e sucata. Uma oportunidade para recolher o lixo acumulado nas ruas, promover a conscientização e trabalhar ciência computacional, programação e robótica em um ambiente que não contava com recursos para isso.


O trabalho deu mais que certo. Durante uma caminhada de quatro anos, alcançou resultados comprovados, tais como o aumento do Ideb, que passou de 4.2 para 5.2; a redução da evasão escolar em 93%; a redução do trabalho infantil em 95%; e a retirada de mais de uma tonelada de lixo das ruas. "Mas, para mim, o maior presente foi realmente ver que meus alunos começaram a sonhar, a ter expectativas e projetos de vida pessoal", conta a docente, que, com a ação, se tornou a primeira mulher brasileira e sul-americana a estar entre os dez finalistas do Global Teacher Prize, considerado o Nobel da educação.


No mês que marca o Dia do Professor, Débora Garofalo falou, em entrevista à Presença Pedagógica, sobre os desafios da carreira docente e como a atitude do educa-dor pode gerar a transformação. Garofalo é graduada em letras e pedagogia, pós-graduada em Língua Portuguesa pela Unicamp e mestranda em Educação pela PUC-SP. Tem 14 anos de experiência na rede pública de São Paulo, atuando na Educação Infantil, Ensino Fundamental I, II, Médio, em educação para jovens e adultos e em salas multidisciplinares. Atualmente, é assessora de Tecnologias na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.


Quando decidiu seguir a carreira docente?

Ainda menina me vi com essa vontade de ingressar na carreira docente. Sempre me identifiquei muito com a sala de aula. Comecei a trabalhar muito cedo, e um grande propulsor para meu ingresso na docência foi a minha atuação como recreacionista em uma escola de Educação Infantil. Lá, eu tive o apoio da diretora, que me disse que eu tinha "jeito" para ser professora e perguntou se eu não gostaria de ingressar no magistério. Então, fui me identificando, me enxergando como docente.

No começo não. Eu trabalhei em escolas de Educação Infantil. Prestei vestibular para a USP, mas não passei por dois pontos na segunda fase e precisei trabalhar em outros locais para custear minha faculdade. Assim, iniciei a minha carreira em banco, depois na indústria. Em 2005, senti vontade de voltar a dar aulas e passei no concurso realizado pelo estado de São Paulo. Assumi a sala de aula no período da noite; concomitantemente com meu trabalho na indústria. É nesse momento que começo a minha jornada na rede pública de ensino. Em 2013, ingresso também na rede municipal. E, no ano seguinte, infelizmente, começo a atuar apenas no município. Recentemente, há aproximadamente três meses, deixei a sala de aula para trabalhar na implementação de uma iniciativa que irá alcançar mais de 2 milhões de alunos.


Em algum momento pensou em desistir da carreira docente?

Certa vez, estava dando aula de língua portuguesa no 5° ano, e a porta da sala estava encostada com uma carteira. Era uma daquelas carteiras mais antigas, de ferro na ponta. A escola era muito grande, e uma pessoa de fora pulou o muro, entrou nas dependências da instituição e chutou a minha porta. Eu estava em pé dando aula, a carteira entrou na minha perna e eu caí no chão. A minha dor na hora era tanta que imaginei que tivesse levado um tiro. Os alunos me socorreram, chamaram o diretor da escola. Naquele momento, pensei: "Será que preciso passar por tudo isso?". Você está trabalhando, vem uma pessoa de fora e faz isso. Os alunos não tinham culpa alguma. Mas é triste você vivenciar uma coisa dessa. Ao mesmo tempo que tive esse primeiro pensamento, senti uma força interior que me dizia assim: "Mas você também está pecando como professora". E ali comecei a entender que o meu trabalho não podia estar somente entre quatro paredes. Ele precisava envolver o entorno da escola, levando a educação para mais pessoas. Claro, fiquei um tempo afastada para me recuperar; mas, depois do ocorrido, comecei a ser uma professora diferente. Me tornei uma docente que realiza trabalhos sempre envolvendo a comunidade local e entende que o papel do professor é também transbordar. E é um pouco disso que faço. Hoje, estou atuando como assessora de Tecnologias na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo com o mesmo intuito de fazer de outros lugares a minha sala de aula.


Muitas demandas são exigidas dos professores na atualidade. E, em meio a infraestruturas inadequadas, baixos salários, pouca valorização, muitas vezes pode parecer que não é possível desenvolver uma educação mais significativa e alinhada com o século XXI.

Acredita ser possível desenvolver algo grandioso mesmo em situações não tão favoráveis?

Acredito que é possível fazermos grandes coisas com poucos recursos. E avalio que é esse o legado que o trabalho de robótica com sucata deixa para o Brasil. Especialmente quando se fala de tecnologia e inovação, a ideia que se tem, às vezes, é de que é preciso um computador top de linha, uma internet banda larga. Eu sou sincera em dizer que comecei esse trabalho com o meu celular e os celulares dos meus alunos para retra

tar a realidade local por meio de fotografias e gerar a sensibilização e mudança de atitude. Também começamos pegando material do lixo para transformá-lo com as mãos. Depois, como em todo trabalho, os alunos foram evoluindo, outros conceitos foram sendo aplicados e desenvolvidos por eles. Quando comecei, também não tinha certeza. Fui duramente criticada pelos meus próprios colegas, que diziam que aquilo que estava fazendo era artesanato. Precisei provar que não, que tinha componentes eletrônicos, placa programável, entre outros. Existe o paradigma de que o ensino de robótica é caro. Como professora, tinha opções: podia lamentar por não ter os materiais, por exemplo. Mas escolhi olhar para meus alunos e pensar: "é com esse material que a gente pode trabalhar, e vou usar isso para fazer a diferença na vida de vocês".

O conselho que dou para qualquer professor é para que ouça seu aluno. Uma vez, levei os meus a um evento, e uma outra pessoa conduziu a conversa com eles. Então, essa pessoa perguntou de que forma eles aprendiam. Uma aluna respondeu: "O professor tem que entender que estamos em outros tempos, que a gente aprende de forma diferente. Eu aprendo muito mais em uma conversa como a que estamos tendo aqui do que quando o professor passa o conteúdo na lousa". Apesar de naquela época já ser professora de tecnologia e ter certeza de que isso não ocorria nas minhas aulas, para mim foi um pouco chocante o relato dela porque nunca havia parado para ouvi-los sobre a forma como eles aprendiam. Ouvir o aluno é primordial para o acerto do professor. Outro ponto importante é se permitir aprender dentro do processo. Somos todos seres aprendentes e aprendemos uns com os outros. O primeiro passo para a mudança é a atitude.


Poderia contar um pouco sobre o projeto de robótica com sucata?

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Almirante Ary Parreiras, tive a oportunidade de me tornar professora de tecnologia. Fiz uma proposta muito ousada de trabalhar ciência computacional e robótica, e ela foi aceita.

Em uma conversa inicial com os estudantes, a primeira questão que eles relataram foi a do lixo, que os impedia de ir para a escola em dias de chuva devido a alagamentos, além de contribuir para doenças como dengue e leptospirose. Fiquei pensando: pensamento computacional e robótica são extremamente interessantes, mas não adiantaria muito falar sobre isso se eu não resolvesse o problema do lixo, que para eles era algo mais urgente. Então tive a ideia de pegar esse tema e transformá-lo em currículo, com trabalho de robótica com sucata. 0 trabalho consistia em aulas que visavam a trazer o entendimento de como aquele lixo era descartado e a tornar as crianças multiplicadoras desse conhecimento, de modo a orientar a comunidade de forma correta. Contava às crianças que elas tinham um grande potencial para transformar a vida delas e da comunidade. Ao mesmo tempo, as crianças e eu começamos a tirar o lixo das ruas. No começo foi muito difícil. A proposta era levar o lixo para a sala de aula e tentar fazer um protótipo inicial que consistia em um carrinho movido a bexiga, utilizando a Terceira Lei de Newton. As crianças se identificavam muito porque era uma aula que funcionava, que elas podiam levar embora para casa. Tive certeza de que estava no caminho certo quando o 9° ano me pediu para fazer a atividade.


Além dos desafios já relatados, você sentiu outras dificuldades para desenvolver o projeto de robótica com sucata?

Foram muitos os desafios. Os alunos precisaram passar por uma mudança cultural. Mas também houve uma mudança cultural na própria gestão da escola. Lembro-me de uma frase da minha coordenadora na época, que disse: "Nunca imaginei uma aula de tecnologia fora do laboratório". É possível perceber que é uma mudança cultural porque ela, com todo o seu conhecimento de coordenadora de uma escola, não conseguia imaginar isso. Essa mudança depois envolveu os próprios colegas de profissão, que viram que era possível ter uma outra proposta de trabalho, que passasse por uma aprendizagem criativa, "mão na massa", com sensibilização de outras questões. Essa também foi uma oportunidade para enxergar, a partir de um problema real, formas de trabalhar de maneira interdisciplinar. 

A grande conquista foi a compreensão da comunidade de que ela não iria melhorar sua vida se continuasse jogando o lixo na rua, pelo contrário, aquilo iria agravar a situação. Temos relatos dos próprios alunos sobre o que conseguimos de êxito. Hoje não temos tantas ruas no bairro que alagam como antigamente, por exemplo. Um ponto importante a destacar é que sempre houve muito cuidado para não alterar a vida da comunidade. Era preciso ter cuidado para nunca mexer com famílias que precisam desse lixo para sobreviver. Não podia, por exemplo, fazer uma parceria com a prefeitura para implementar na comunidade a coleta seletiva. Por quê? Porque muitas vezes essas famílias dependem desse lixo. Então era drástico demais. Com o tempo, fomos amadurecendo o trabalho, até que ele se tornou autossustentável.


Você é a primeira mulher brasileira e sul-americana que esteve na final do Global Teacher Príze. Para você, o que isso representa?

Isso representa muita coisa. Para mim, participar da final já foi um prêmio, por estar levando um trabalho brasileiro, de uma escola pública da periferia, representado por uma mulher que trabalha com tecnologia. Isso é a coroação de todo um trabalho. São várias quebras de paradigmas, que deixam a lição de que devemos valorizar essas práticas docentes e realmente investir nelas como política pública. Fico imaginando quantos trabalhos de muitas Déboras estão por aí. A minha inscrição mesmo se deu muito por acaso, me inscrevi no último dia e na última hora. Não tinha nenhuma expectativa de ser chamada, meu intuito era conhecer o que era preciso para participar de um prêmio internacional. E as coisas foram acontecendo.


Depois de alguns meses da premiação, como está o projeto de robótica com sucata? Você tem pensado ou já está realizando outros projetos?

Continuo o projeto, mas não mais como trabalho formal da escola. Atuo com a comunidade, aos finais de semana, dando impulso para aqueles alunos se torna

PP São várias quebras de paradigmas, que deixam a lição de que devemos valorizar essas práticas docentes e realmente investir nelas como política pública

rem multiplicadores desse conhecimento e avançarem com o projeto. Esse trabalho que iniciei com os meus alunos está sendo incorporado como política pública dentro do programa Inova, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, do qual faço parte. A partir do dia 3 de fevereiro de 2020, o trabalho de robótica com sucata vai impactar 2,5 milhões de estudantes. O desafio é grande!


Usando sucata e robótica, você conseguiu desenvolver uma educação humanizadora e sustentável em uma comunidade de São Paulo. Qual mensagem deixaria para outros professores que passam pelas mais diversas dificuldades na missão de educar?

A mensagem que gostaria de deixar é: professor, você é um agente da transformação. O seu trabalho é necessário porque é capaz de transformar vidas. Portanto, não desista. Continue nessa profissão linda que, com certeza, nós recebemos diariamente as recompensas dela.


Fonte: Revista Linha Direta - Outubro 2019

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